Natal: uma criança que nasce dentro de nós – Marcos A M Bittencourt

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Aspectos da tradição, do consumismo e da subjetividade

A festa que boa parte do mundo comemora anualmente no dia 25 de dezembro, conhecida pelo nome de Natal (de “nascimento”) tem a sua origem mais próxima ligada ao nascimento de Jesus de Nazaré, conforme relatado no texto dos evangelhos, principalmente o de Mateus e o de Lucas.

Embora os cristãos dos primeiros séculos da história da Igreja não tivessem o costume de comemorar o nascimento de Jesus, podemos perceber o abismo cultural que separa o sentido do nascimento do Cristo da forma como é compreendido o Natal pela sociedade de consumo, incrementada ainda por elementos e símbolos que foram acrescidos com o passar dos tempos, como é o caso do Papai Noel, cuja origem vem da Turquia (antiga Ásia Menor) no século IV d.C, baseada na história de um bondoso bispo de Myra chamado Nicolau que, para evitar que três pobres moças entrassem para a vida de prostituição, durante o inverno, jogou, durante três dias consecutivos, três sacos de ouro pela janela (alguns dizem que foi pela chaminé). Ou ainda podemos fazer menção a outros registros durante a Idade Média, como a festa do “Yule”, celebração nórdica realizada em homenagem ao solstício, que nos legou a ceia natalina, a decoração das casas e a árvore de Natal. Nessa mesma festa falava-se de um ser sobrenatural (um gnomo) que dava presentes às crianças.

Quanto à data de 25 de dezembro, ela foi instituída como data do nascimento de Jesus cerca de 315 d.C. pelo Imperador romano Constantino objetivando substituir as festas romanas dedicadas ao deus Saturno (equivalente ao culto persa ao deus Mitra), época em que celebravam o regresso do sol depois dos dias escuros do inverno. Pesquisas recentes feitas a partir de evidencias internas dos textos bíblicos dão conta que esse evento teria ocorrido por ocasião da Festa judaica dos Tabernáculos que ocorre por volta do mês de setembro (ou outubro, dependendo do ano). A propósito dessa teoria, o Jornal Estado de Minas de 16/12/1990 publicou uma matéria do pesquisador do Observatório Municipal de Campinas, o professor Nelson Travnik, com informações processadas em computador, apontando o nascimento de Jesus para 15 de setembro do ano 7 d.C., considerando aí, inclusive, a revisão feita no calendário gregoriano sobre os cálculos errados feitos por Dionísio no Século XIII.

O que fica do conhecimento da história das narrativas bíblicas e da tradição que se desenvolveu durante os séculos seguintes é que a religião cristã adaptou elementos e símbolos da cultura aos seus próprios símbolos e valores fazendo com que o nascimento de Jesus fosse algo comum aos seres humanos, plenificando, assim, o conceito cristão da humanização da Palavra criadora, “o verbo que se faz carne”.

Enquanto os religiosos reclamam a comemoração do Natal nos termos dos seus valores espirituais, éticos e humanos, exaltando a fraternidade e o amor em torno do menino Jesus, a sociedade contemporânea celebra a data visando o comércio e o consumo. Essa origem mais materialista se confunde com a história de um personagem de Walt Disney chamado Tio Patinhas, baseado na obra “Um Conto de Natal” (Charles Dickens), que conta a história de um milionário de Londres de 1846 chamado Ebenézer Scrooge, homem solitário que passava seus natais praguejando contra os pobres e desejando sua extinção. Scrooge teria recebido a visita de três espíritos natalinos, os quais lhe exortaram a usar a data do Natal para abrir seu coração à bondade, doando parte de sua riqueza aos pobres (é daí que vem a ideia do chamado “espírito natalino). A partir de então, teria se transformado num homem generoso. A narrativa contrasta o “espírito natalino” da fraternidade defendido pela religião com a competição do capitalismo industrial da Inglaterra do Século XIX. A partir do exemplo do personagem de Dickens, estimula-se a produção em massa, promovendo, assim, a indústria dos presentes, relacionando-os com a festa do Natal.

Mas o acesso aos bens de consumo e aos presentes não é para todos. Não obstante o Natal ser uma festa em família, exalta-se mais a aquisição de bens, contrastando com a exclusão de muitos que não tem o poder econômico da compra de presentes. A ceia natalina, que deveria ser um momento de confluência, torna-se muitas vezes um momento de reabrir antigas feridas na relação familiar, com a ajuda de um alto teor alcóolico “na veia”, terminando a festa em grande confusão. Alie-se a isso a melancolia das músicas natalinas e a tristeza resultante da ausência de entes queridos que morreram durante o ano que se finda. Para se ter a ideia desse “desafeto”, na falecida rede social Orkut existiam 43 comunidades chamadas “Eu odeio o Natal”. A própria narrativa de Charles Dickens representa o grande contraste social e econômico da Londres do Século XIX. A depressão é uma possibilidade na falta de outro sentido para o Natal.

Mas, se afastarmos o sentido consumista dessa data o que mais caracterizaria o natal, de acordo com a tradição cristã? Que quadro temos? Simplesmente uma família rejeitada numa pousada palestinense do primeiro século com uma mulher prestes a dar à luz, uma criança numa manjedoura no curral em meio a animais, com visita de sábios da Pérsia trazendo presentes, com muita festa e alegria de anjos e pastores que cuidavam de seus rebanhos e o sinal de uma estrela no céu a ser seguido no caminho do encontro com aquela criança. Todos em torno de uma criança que, de acordo com os evangelistas que escreveram as narrativas sobre o Cristo, veio para trazer a paz e a salvação. Para esse mundo sem esperanças uma criança é a solução. Aqui temos que mencionar Freud que dizia: “a criança é o pai do homem”. Ou ainda, o próprio Jesus adulto que alertava: “ninguém pode entrar no reino dos céus se não se tornar como uma criança”. Não apenas dessa criança que nasce comunicando vida, mas aquela criança que fala o que lhe vem à cabeça, aquela criança sem “cera”, que comunica sentimentos, que traz sonhos que parecem morrer quando nos tornamos “gente grande”. Entendo que o debate sobre a cultura em torno dos símbolos natalinos importados das culturas europeia e norte-americana é de valor secundário diante da beleza que temos diante do universo subjetivo da criança que não pode ser esvaziada das fantasias que envolvem datas comemorativas e simbólicas. No caso do natal, essas fantasias, aliadas ao brincar e aos presentes, organizam o mundo interno da criança, além de inscrevê-las num desejo que transita entre a falta (a expectativa diante do que ainda não tem mas que espera) e a realização, ligados evidentemente às figuras parentais (simbolizadas pelo Papai Noel) das quais a criança recebe os afetos de cuidado e amor, mas também de desamparo. Parece que quando nos tornamos pais levamos o sentimento de responsabilidade diante da criação dos nossos filhos para níveis de um embotamento dos sentimentos e da própria criança que existe em nós, como se devêssemos esconder essa criança para podermos parecer mais sérios e adultos aos nossos filhos. É preciso deixar essa “criança” da qual nos falam Jesus e Freud sonhar e vivenciar em torno daquilo que circula em torno dela: o paradoxo do desamparo da pousada em Belém da Judeia e o conforto de uma simples manjedoura cercado de vida e cheiros de mirra e animais; o contraste de uma noite escura com o brilho intenso de uma estrela que traz grande alegria e esperança. Viver os ritmos das marés da vida, aceitando a frustração e a tristeza como parte do existir da mesma forma que recebe gostosamente o bom e o belo como uma dádiva, a qual não deixou de ser sonhada.

Por isso, Natal é, sobretudo, uma vivência de serenidade, onde permitimos ao mesmo tempo a coexistência do silêncio inquietante que nos leva ao encontro e enfrentamento do insuportável que existe dentro de nós (a noite escura) e a alegria do sonho infantil celebrado nas melodias dos seres angelicais, dos sábios que trazem presentes e pastores do campo (a estrela no céu da noite) com a esperança de que, ao seguirmos a estrela, nossos passos produzam dias melhores para nós e nossa comunidade. Tenhamos todos um natal com essas duas vertentes!

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