Refletindo sobre a filosofia e o filosofar na vida – Marcos A M Bittencourt – Psicólogo clínico

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Aprendi “Filosofia” mas não “filosofar”. Conheci do conteúdo dos pré-socráticos” aos existencialistas europeus e adentrei na pós-modernidade. Mas o que aprendi foi mero assentimento intelectual de experiências alheias, de frases soltas, de afirmações de homens que passei a admirar.

Mas, em que isso me ajudou, se não me tornei tributário e responsável pela pergunta em torno de minha própria existência? Conheci perguntas que eram dos outros e respostas que não eram minhas, algumas delas, vindas em pacotes salvíficos. Enfim encontravam respostas para tudo, menos para mim. Compreendi então que sabia “filosofia”, mas não sabia “filosofar”, pois prosseguia apenas admirando o conteúdo dos outros. Mas que não se confunda esse “vazio” com o sentimento expresso por Jules Lachelier sobre o filosofar quando menciona “sua congenital ambigüidade e seu caráter de processo contínuo de totalização”. Não é o vazio metódico (esvazio-me para experimentar e conhecer), mas o vazio de idéia, de sentido, o vazio da acomodação. Aqui está a essência do filosofar. Essa tarefa não existe e não é, mas pretender “continuar sendo”, é uma tarefa infinita que envolve leituras e releituras em cada estação da vida.

O caminho do filosofar é um caminho de libertação a partir do autoconhecimento. Mas conhecer a si mesmo é um investimento e não uma recompensa. É difícil, incomoda e dói; isso, porque não suporto o ser que verdadeiramente sou e não estou disposto a repensá-lo. Prefiro, antes, “racionalizá-lo” e justificar-lhe com as fantasias do que eu gostaria de ser. O conhecimento de si é a maior das rebeldias e não gosto de encarar rebeldes, só passivos. O caminho do “continuar sendo” e do autoconhecimento envolve o abandono de falsas imagens próprias que é uma espécie de visão que o Criador tem de nós, nua e crua e não aquela visão que a sociedade, o estado e outros grupos têm de nós. Crescemos acreditando que temos que moldar nossa vida para atender as expectativas de pessoas e instituições

e deixamos a vida de lado. Mas que não se confunda a expectativa que os outros têm de nós com a necessidade de filosofar não apenas sozinho mas no grupo e com o grupo. Animais irracionais atendem à expectativa instintiva para o que foram criados. O ser humano deve “aprender” e aprender demanda filosofar partilhando e “com-partilhando”. A minha autovisão também projeta a visão do outro. Esse é o processo educativo, onde eu me permito, dentro desse exame filosófico, construir e ser construído num movimento logo que envolver o outro, ou seja, pela educação.

Será que vale à pena viver assim, sem exame, sem uma tarefa que envolva a interrogação ética, sem uma interrogação que coloque em perigo o castelo de cristal que construímos, sem um questionamento que apresente nossa imagem narcísica deformada no movimento da água?

Será que vale à pena viver representando um papel no circo da vida, sem se dispor a tirar a máscara e desnudar a nossa mais verdadeira face frente aos refletores? Mais cômodo é repetir o que nos ensinaram desde que fomos paridos. Essa tarefa do filosofar há de requerer uma experiência de “krísis”, em que nos permitamos transitar entre o exame e a decisão, em que rompemos com a lógica do passado, discernindo-o para construir, já no presente, um sentido que nos mova às decisões.

Então, o filosofar nos expõe contra nós mesmos, mas também nos direciona em relação ao mundo de “vida”. Isso ocorre quando assumimos “a decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana”. Somos instados a jamais aceitá-los sem antes examiná-los. Pessoas sem exame vivem dentro de uma caverna, mas não por culpa inata. Nascemos dentro de uma caverna. Temos um legado de uma caverna escura, sombria e úmida e nos acostumamos a viver dentro dela sem vislumbrarmos a possibilidade de uma outra vida. Até que um dia resolvemos ir além da visão curta que tínhamos dos limites da caverna, não obstante os perigos e incertezas por que passaríamos nesse “exame”. Descobriria enfim um mundo novo, um mundo de luz e cores, mas não sem preço: seria considerado louco e pagaria com a pena de morte. Prefiro a morte ainda que seja do desprezo de quem se julga dono da verdade, ainda que seja o descaso, ainda que seja a morte física do que viver morrendo. Não quero ser um “Zé Ninguém”. Não aceito a “vida numa gaiola”, como seu eu fosse o experimento da expectativa alheia. Corro o risco de aceitar o contrato que os outros assinaram para minha vida, corro o risco de deixar de ser “eu”. Prefiro a morte como conselheira, aquela voz branda e silenciosa, revelando-me verdades novas e me convidando a viver e não a filosófica. “Melhor é ir à casa onde há luto que ir à casa onde há festa, pois ali se vê o fim dos homens e os vivos o aplicam ao seu coração” (Eclesiastes 7:2, Bíblia Sagrada). O que a morte nos ensina é “Carpe Diem”, pois não há tempo a perder. Por isso, quero assinar um novo contrato de vida. Se não o assinei antes de nascer, ainda há tempo. Que nesse contrato tenha cláusulas que me permitam participar do “todo da vida”,da vida que se manifesta em mim, que me permita estar consciente de minha finitude e de minha temporalidade, que me permita aceitar o fato de que adoeço e sou imperfeito, errando. Enfim, que eu aceite o fato da morte física como parte da vida.

Lembro-me de um documentário (Nós que aqui estamos por vós esperamos, Brasil, 1999, dir: Marcelo Masagão, cor, 73 min) que assisti certa vez sobre as grandes transformações e personagens mundiais do Século XX, cuja apreciação foi feita a partir de um cemitério, no qual, as lápides informavam que a maioria de seus atores viveram muito pouco. Mas se o pouco que vivessem houvesse sentido. De certa forma, chega a banalizar a vida e a morte para que nós possamos pensar mais sobre elas. Lembrando Sêneca, temos muito tempo para viver, o problema é que não sabemos viver e a vida passa rápido, por isso torna-se curto: “Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido” (SÊNECA, Lucius Annaeus. A brevidade da vida. Ed. Escala, São Paulo, 2007). E aqui termino.

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