PERDÃO: LIBERTAR-SE, LIBERTANDO.

Spread the love

PerdãoLiberta-destaqueO fim do ano chegou e, com ele, a reflexão em torno do tempo que se passou sem que tivéssemos feito o que MarcosBittencourtpretendíamos no início do ano. Muitos de nós chegamos carregados de culpa por não sabermos lidar com a diferença entre o desejável e o possível, mas também chegamos carregando pesos de relações turbulentas que nos deixaram com mágoas e até mesmo, ódio, cuja conta se instala não apenas na “psique” mas no corpo de forma patológica.  É nessa hora que paramos pra pensar na (im)possibilidade de perdoar. O perdão é uma questão muito desafiadora porque parece significar que o agressor escapa impune. Ele pode ter agido de propósito e talvez não esteja arrependido. Ele pode fazer o mesmo novamente sem ser punido. Parece não haver nenhuma motivação para que uma pessoa ofendida tome este rumo. Entretanto, embora o perdão não seja fácil, ele é necessário para o bem da pessoa ferida. As pessoas que foram magoadas e não perdoam continuam a sofrer pressão e feridas emocionais por estarem a segurar a raiva e a amargura.

É interessante pensar sobre perdão a partir da etimologia do termo, preferencialmente na língua grega (άφίήμι) – “afiemi” – que significa “quebrar grilhões” “soltar”, “cancelar”, “liberar”, “perdoar”.  Desde já, se vê a natureza dessa atitude que, pelos seus significados, parece ter mais relação com quem tem o desafio de perdoar do que quem é perdoado. Muitas vezes, o perdão é mal compreendido. Ele consiste na decisão de soltarmos a nossa mágoa e o nosso ressentimento. Perdoar não significa que negamos ou aprovamos a ofensa. Perdoar não é esquecer. Perdoar é lembrar sem sofrer. Aludimos aqui à diferença entre “memória declarativa” e “memória afetiva”. A primeira se refere à capacidade de verbalizar um fato. Já a segunda tem mais a ver com os afetos e como a lembrança de alguns fatos da vida trazem sofrimento à pessoa. Também não quer dizer que a ofensa não tenha consequências ou ainda que ao perdoar devamos nos reconciliar com a pessoa que nos magoou.

Nem todo perdão opera para a reconciliação. Certa mulher religiosa, depois de ter vivido anos sendo magoada pelo marido com constantes atos de traição, decidiu que deveria deixa-lo. Ao ser questionado por ele por essa decisão que aparentemente não condizia com a sua religiosidade, ela lhe disse: “porque te amo, te perdôo; porque me amo não posso mais viver com você”. Assim, o perdão opera para a liberação, o cancelamento de algo dentro de nós que nos consome por inteiro e nos agrilhoa.

Como foi dito na introdução desta reflexão, perdoar não é simples, dói muito junto com a dor que já se sente. Para o psicanalista Jose Luis Caon (Entrevista a Márcia Junges, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, Edição On Line, nro.  388 de 09/04/2012. Disponível em <http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4340&secao=388> acesso em 22 out 2018) podemos ser capazes de atos de perdão, mas não o perdão como um ato total e perene. Quem se descobre disposto a perdoar uma ofensa em geral vive um drama emocional. Afinal, perdoar implica passar a limpo a história de vida com a outra pessoa e a sua própria história. Um dos maiores desafios, então, é rever os próprios conceitos e até a auto-imagem.  Mas nem tudo é consciência. Quase sempre estruturas poderosas do inconsciente nos travam tanto para a tarefa do perdão quanto podem nos “pulsionar” para uma espécie de “falso perdão”, uma espécie de ódio recalcado, um perdão que mais parece uma vingança. Nesse sentido existem ganhos secundários para alguns que reatam relacionamentos sob a alegação de terem perdoado a ofensa. A manutenção de uma confortável situação financeira, o argumento de não ter que enfrentar a vida sozinho(a), a preocupação com os filhos, a manutenção de um certo status moral familiar, por exemplo. Existe também uma espécie de “prazer perverso” de algumas pessoas em “aceitar” a convivência do ofensor para poder exercer um certo poder sobre ele, o qual volta, de uma certa forma, em dívida para com o ofendido. O ofensor fica na mão do ofendido. Aparentemente foi perdoado, mas na verdade não o foi. Quando aparecer uma dificuldade na relação a ofensa será lançada em rosto. A psicanalista Melanie Klein (“Amor, culpa e reparação”, 1937) disse que se formos capazes de eliminar, nas profundezas do nosso inconsciente, os sentimentos de rancor em relação aos nossos pais e de perdoá-los pelas frustrações que tivemos que suportar, então seremos capazes de amar os outros no verdadeiro sentido da palavra.

Muitas vezes a pessoa que deseja perdoar sente-se traída pela própria cabeça.  Acha-se fraca, boba, enganada por si mesma, comportando-se de modo contrário ao que sempre disse e em que acreditou. Alguns acham que, se perdoar, o(a) outro(a) nunca mais irá lhe respeitar.” Mas isso depende como cada um perdoa posto que perdoar os outros não significa que nos tornaremos fracos, ingênuos ou alvos fáceis dos predadores deste mundo. Não significa que não tomaremos providências para nos proteger de maneiras saudáveis ou para impor limites bem claros àqueles que continuam a tentar nos vitimizar. Contrariando essa ideia por mais defendida pelo senso comum, o perdão faz com que a pessoa abandone o papel de vítima e tome posse de seu desejo fazendo furos em suas fantasias e enxergando a situação de tal forma que possa conscientizar-se da tarefa de não cometer os mesmos erros do passado. Quem perdoa, olha para trás através de um retrovisor não para ficar fixo no passado, pois aí poderá colidir o seu veículo. Olha pra trás apenas para fazer, com segurança, uma ultrapassagem necessária.

Para quem quer perdoar e reconciliar-se com o(a) outro(a) torna-se necessário um reencontro que vá muito além das emoções. No fogo da paixão, aceita-se, de cara, a promessa do tipo “nunca mais farei isso novamente”. Com o tempo, a casa cai de novo. Por isso, torna-se necessário a revisão do contrato que não se manteve de pé. É preciso conversa, reflexão sobre as vulnerabilidades passadas e novos acordos. Não adianta “empurrar a relação com a barriga”, caindo numa espécie de rigidez emocional que se escora em expressões do tipo “os homens são todos iguais” e “as mulheres são assim mesmo”. Isso é apenas uma tentativa inconsciente de aliviar a dor da solidão. O fundamental é a parte ofendida poder recuperar o verbo “confiar”, o que dependerá em parte do ofensor. Se isso não acontecer, não tem como resgatar a relação.

Enfim, como se percebe, o perdão é uma possibilidade que não deve confundir-se com a experiência religiosa. Perdoar torna-se uma necessidade orgânica e estruturante do sujeito para que possa despojar-se de pesos que, sem querer teve que carregar mas que, por resistir, insiste em continuar carregando. É como se arrancássemos o nosso próprio coração de dentro de nós e o entregássemos nas mãos de um(a) outro(a). É preciso pegá-lo de volta. É preciso reconciliar-se com as possibilidades e erros de nossa história como parte integrante e até necessária dela.  Como disse Hannah Arendt, “perdoar é libertar-se da irreversibilidade do passado”.

Marcos A M Bittencourt (Psicólogo Clínico, CRP 002/15.799

Artigos relacionados

COMO CHEGAR



AMPARE
Associação dos Amigos dos Pacientes de Pânico
Rua Osvaldo Cruz, 393
Boa Vista - Recife - PE
Fone: (81) 3222.6252

FACEBOOK

FALE CONOSCO