O homem moderno (ou pós-moderno) e seus conflitos

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Um dos fenômenos psicológicos e sociológicos que tem sido observado nas últimas cinco décadas é a mudança no comportamento do homem moderno (ou melhor, “pósmoderno”), homem enquanto figura masculina e não no sentido de ser humano, como um rebatimento das mudanças de âmbito social e ideológico na conjuntura mundial.

MarcosBittencourtPercebe-se um conflito na figura masculina que, acaba sempre o levando a um consultório de psicologia, embora ele seja mais resistente que a mulher para um acompanhamento psicoterapêutico. Convém, em primeiro lugar, entender a palavra conflito e, em seguida, entrarei nas questões centrais desse conflito.

A palavra conflito vem do Latim conflictu que significa choque, embate das pessoas que lutam; reencontro; discussão; altercação; desordem; antagonismo; oposição; conjuntura; momento crítico (Fundação CECIERJ, [s/d] ). O termo define o conjunto de duas ou mais hipotéticas situações que são exclusivas, isto é, que não podem ter lugar em simultânea (por serem incompatíveis). Pode-se também falar de um conflito interno na medida em que coexistem tendências ou impulsos antagónicos dentro de si.

Mas, que características antagônicas poderiam promover conflitos na figura masculina? Por um lado, podemos destacar uma psicologia masculina resultante de períodos de um patriarcalismo machista que se caracteriza por suprimir manifestações afetivas, condenando-as como um sinal de fragilidade de quem as demonstre, vendo isso, como um sinal de vulnerabilidade, pondo em risco a imagem e o poder (“homem não chora”). Vê- -se como muitas mulheres são infelizes em seus casamentos porque não conseguem que seus maridos manifestem seus sentimentos por elas, seja por atitudes, seja pelo diálogo. Vê-se também esse rebatimento nas relações com os filhos como nos versos de Fábio Jr: “Pai, senta aqui que o jantar está na mesa; fala um pouco, tua voz está tão presa…” (MÚSICA Pai, 1978). É muito comum homens desse tipo fazerem a seguinte afirmação: “Eu amo a minha esposa, mas do meu ‘jeito’… Não sou de falar eu te amo, nem de fazer carinhos e chamegos, mas o que importa é que eu demonstro com atitudes não deixando faltar nada em casa”. A questão é que ninguém nasce com ou sem esse “jeito”. Tudo é construído na relação afetiva primária (pais ou cuidadores) e, pode, ao longo do tempo ser mudado, na medida em que a pessoa se torna consciente de uma situação incômoda. Por outro lado, vê-se, com a força ideológica implementada com os rebatimentos do marxismo cultural no Ocidente (capitaneada por governos socialistas), um processo de “desmasculinização” ou “feminização” (não confundir com homossexualidade) do homem ocidental. Essa ideologia reclama por um “homem ético”, que se levante contra os postulados do patriarcado machista. Ao mesmo tempo, com o advento da pílula anticoncepcional (1960), a mulher tornou-se dona de sua própria sexualidade, libertando-se aos poucos da opressão machista, na medida em que também saía de casa para trabalhar (no princípio, para ajudar no orçamento doméstico). Esse homem certamente não será mais o mesmo a partir de então.

A jornalista dinamarquesa Iben Thranholm (VÍDEO YOUTUBE, 2016), numa entrevista, analisou os muitos casos de estupros promovidos por homens muçulmanos refugiados às mulheres europeias, afirmando que os homens perderam a capacidade de defenderem suas mulheres de outros homens, e quando eles o fizeram, foram para passeatas vestidos de minissaia (Holanda), coisa que não afeta em nada os estupradores que podem até zombar disso. Os próprios líderes europeus seriam homens “suaves” e frágeis para lidar com os estupros de mulheres e atos terroristas. Pontuou, inclusive, a passividade de líderes femininas como Angela Merke (Alemanha)l. Para Thranholm, isso foi, em parte, resultado do feminismo radical, que criou um vácuo onde as próprias mulheres se tornam vítimas de estupradores sem homens de verdade para as defenderem, seja no plano particular ou comunitário, seja no plano estatal. Diz Thranholm: “Talvez esse humanismo secular seja só uma ilusão porque não funciona” (“apanhar e não fazer nada”). “Precisamos de uma revolução masculina…os homens devem retomar a responsabilidade… para voltar às antigas virtudes masculinas de proteger as mulheres, as crianças e sua cultura porque este projeto pós- -moderno está morto, ele não funciona”. Diz ainda que “se continuarmos a sermos gentis e com essas ideias de que não existe o mal, todo mundo é bonzinho, basta apenas ter um carro e um emprego que eles vão se integrar…. não, não é assim que funciona”. A tese central de Thranholm é que uma sociedade sem o equilíbrio entre o masculino e o feminino entrará em colapso. A jornalista dinamarquesa defende que se deve buscar um equilíbrio entre o masculino e o feminino. Assim, não se perdem os direitos e as conquistas femininas, enquanto se tem um homem com suas características viris, de força e coragem (acrescento aqui… ao mesmo tempo em que amoroso, carinhoso, sensível, gentil e solidário). Mas o politicamente correto impõe o empoderamento feminino nos moldes de uma luta de classes de tal forma, que o masculino murcha diante da força ideológica e do processo de “de- -formação” cultural.

Em função de toda essa conjuntura, o homem moderno tem que lidar sempre com pressões internas e culturais para que tenham um desempenho profissional e pessoal acima da média, verdadeiros “águias” sociais ! Isso pode se transformar num vício em adrenalina, com a ênfase em fazer, realizar e produzir a qualquer custo. A Síndrome de Burnout pode ser uma consequência.

O homem tem que lidar com as feridas causadas pelos pais, principalmente pela figura paterna. Ele entra na vida adulta não apenas com a masculinidade ferida, mas também com uma dependência não sadia da aprovação das mulheres. A necessidade de aprovação vinda das mulheres pode ser tão grande que, ao enfrentar os inevitáveis conflitos que surgem dentro do casamento, o homem procura outra mulher que possa aprová-lo e dar-lhe a afirmação.

Esse homem tem também dificuldades para lidar com sua sexualidade e a sexualidade de sua mulher. Diante dessa mulher poderosa o homem se perde e murcha. Às vezes ouve da própria mãe ou da esposa que elas não precisam de homem para viverem ou criarem filhos. No filme “Fale com ela”, de Pedro Almodóvar (FELIPPE, 2004), existe uma cena icônica, onde um dos personagens do filme, se vendo diminuto numa fantasia, entra numa vagina gigante, momento em que se vê engolido e engolfado pela mulher, num misto de “fascinação e medo desse imenso buraco, negro, misterioso (…) que pode aterrorizar o homem para o resto de sua vida” (ibdem, 2004).

Verifica-se, ainda, a dificuldade em saber qual o seu papel no lar. Alguns desses homens vivem uma espécie de “síndrome de hospedagem”, como se fossem hóspedes em sua própria casa, não assumindo responsabilidades quanto às providências maiores ou pequenas ocorrências, remetendo sempre as demandas dos filhos (quando esses o procuram) para a esposa (“Vá falar com sua mãe”). O que será esse homem? Um filho para sua própria esposa? Um irmão mais velho para seus filhos? Charles Melman, em entrevista concedida à jornalista Celina Cortês (ISTO É, 2004), falando do esvaziamento da figura paterna assim como o lugar da autoridade de uma maneira em geral, afirmou que “não há mais autoridade, ou a função de referência. Sua figura se tornou anacrônica. Nas famílias, o pai e a mãe passam a ter as mesmas atribuições, o que dificulta a identificação dos filhos com a figura masculina e com a feminina”. Estava certo o psicanalista Charles Melmann quando anunciou no seu livro “O homem sem gravidade” a “morte do pai” simbólico (2004).

Enfim, entendo que qualquer radicalização ideológica polarizada será perigosa para a compreensão do que se entende ser o masculino, posto que a tendência será sempre a de ficar num dos extremos. Como postulou Iben Thranholm, o ideal é uma sociedade onde haja o equilíbrio entre o masculino e o feminino, onde o fundamentalismo ideológico tende à luta de classes: machismo versus feminismo radical. Um processo educativo que foque o ser humano e suas necessidades fundamentais muito tem a contribuir. E, ainda, um homem sensível, um homem aberto a falar de seus sentimentos. Há de ser firme, mas sem perder a ternura.

Marcos A M Bittencourt – Psicólogo Clínico CRP 02/15799

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