Lidando com a frustração – Jacilene Cansanção Bittencourt

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“Concede-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir uma da outra – vivendo um dia de cada vez, desfrutando um momento de cada vez, aceitando as dificuldades como um caminho para alcançar a paz…” Reinhold Niebuhr (1892 – 1971)

 

jacileneVivemos numa época em que grande parte das pessoas não sabe lidar com as frustrações. Na pós-modernidade é proibido discordar, frustrar. Espera-se que todos concordem com o “politicamente correto”, posto que discordar é coisa de reacionário. Nada de deixar de atender o desejo das crianças em casa para não provocar traumas, é o que é proclamado. Assim, testemunhamos uma geração despreparada para a frustração, para o “não” que, uma vez não vivenciado pedagogicamente seja no lar, seja fora dele, pode ser o gatilho para levar o sujeito ao transtorno depressivo.

Na batalha da vida todos nós temos que administrar nossos sonhos, angústias, expectativas e, consequentemente, possíveis frustrações. Os sonhos, por exemplo, são agentes mobilizadores da nossa vida. Precisamos estar focados em um ideal. Mas, todos em algum momento da vida vamos nos deparar com os desapontamentos perante uma expectativa fracassada.

Mas a frustração não pode ser considerada como uma vilã de nossas vidas. A frustração é aprendida e deve ser ensinada e exercida nos primeiros anos de vida. Não é saudável permitir que a criança tenha todos os seus desejos e vontades atendidos, pois o a sua capacidade de suportar a frustração será pequena e terá problemas de adaptação em várias áreas de sua vida. Ouvir um “não” na hora correta é extremamente enriquecedor para o desenvolvimento emocional, criando a habilidade de lidar com a frustração ao longo de toda a sua vida.

Para saber lidar com a frustração é preciso ter clareza quanto à natureza das experiências decepcionantes porque passamos, pois entendemos que existem realidades que podemos modificar e outras que não podemos mudar. Assim, a forma como a frustração vai ser enfrentada, depende de como você lida com ela. Se você tem um nível de tolerância saudável em relação à frustração, mesmo que esteja em uma situação que não goste, como um emprego, por exemplo, você terá a clareza de que aquilo você pode mudar, mas não no momento que você quer e assim enfrenta o emprego até que surja uma nova proposta viável. E não apenas isso, operar para que essa mudança ocorra.

Existem situações que você não pode mudar e ainda tem que aprender a conviver com o problema, como por exemplo, um trauma na infância (assédio, estupro, acidentes, perdas de entes queridos), momentos estes, impossíveis de serem mudados. É necessário dar continuidade à vida mesmo em meio ao sofrimento. Costumo dizer diante da minha prática clínica de que o passado não pode se fazer presente na vida de uma pessoa para sempre. O passado não pode e nem deve ser esquecido, pois ele faz parte da história de cada um. Imagine-se dentro de um carro onde tudo que está à sua frente é o presente e o seu passado é representado pelo retrovisor. Quando dirigimos, o nosso foco é sempre olharmos para frente, o espaço é amplo e as olhadas no retrovisor são rápidas e o espaço é bem pequeno. O retrovisor serve, tão somente, para nos orientar na direção a seguir. Nós não podemos fixar o olhar no retrovisor, por que assim não conseguiríamos dirigir, assim é a vida, não podemos fincar o pé no passado e deixar de avançar para tudo o que a vida tem para nos oferecer. Àquilo que você não pode mudar, amolde-se!

Além do aprendizado que devemos ter em relação à frustração, convém lembrarmos que nós somos pessoas e pessoas são diferentes entre si e assim reagem e se emocionam de forma diferente diante de um mesmo fato. Ao se deparar com um obstáculo para a realização de um sonho, comece identificando cada sentimento e se permita que venham à tona e nunca negando a tristeza, ao menos para você mesmo. Tente falar sobre a sua frustração para um familiar, um amigo ou um profissional. Abordar o tema pode até dar a sensação de que piora a angustia, mas esvaziar-se do desconforto te levará a superação do problema. Lidar com o sentimento é o primeiro passo para superar a fase ruim que se está enfrentando. Outro ponto importante é a atitude ao identificar a dor e ver o que possível ser feito a partir desse momento. Atitude é ato, é prática, é posicionamento, é decisão. É decidir por uma mudança e ter disposição para isso. Aceitar a condição não é acomodar. Assim é permitido ter um novo olhar e seguir em outra direção ou até fazer diferente ainda que no mesmo caminho. Para que as portas se abram é necessário levantar-se da cadeira. Para superar a frustração também é necessário ter força interior e não ter pena da sua condição atual, pois tudo isso é momentâneo. Nada de se vitimizar. Se transformar em vítima apenas lhe coloca numa posição onde você pode ser visto pelos outros, nutrindo a fantasia de que está sendo apreciado. A vida não é uma linha reta, todos nós temos altos e baixos a serem enfrentados, só não podemos perder a capacidade de lutar e de ter fé.

Jacilene Cansanção Bittencourt* – *Psicóloga Clínica, Membro do SPPA (Serviço de Psicologia & Psiquiatria AMPARE) . Texto escrito para o site: www. emmeioaosofrimento.com.br

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