Experiência com o Alzheimer da minha mãe – por Maria do Carmo Nigro de Andrade (Carmita)

ALZHEIMER

Diante de um diagnostico inesperado CID-10 G30 – DOENÇA DE ALZHEIMER em 1994 onde a paciente era minha mãe, Tereza Marinho Nigro com 68 anos de idade e, diante de uma doença irreversível, degenerativa que pouco a pouco ia lhe deixando mais e mais dependente e ausente da vida e do seu convívio familiar.

CarmitaDaquela data em diante, houve uma reformulação nas nossas vidas porque o avanço da sua doença Mal de Alzheimer foi galopante e o seu declínio fora desesperador. Num espaço de 6 meses, passamos à morar num mesmo ambiente, onde sempre a prioridade era ela. Em todos os momentos em que esta enfermidade surgira, a dedicação, o amor, o reconhecimento das suas qualidades de mãe, esposa, irmã, filha, amiga lhe fizeram ter um tratamento especial onde todos a respeitavam e se dirigiam a mesma como se não existisse doença alguma.

A primeira providência foi trazer os objetos e quadros mais significativos da minha mãe para o seu quarto e espalhados pela sala, corredores e etc. Onde ela observava e lembrava-se das pessoas que faziam e fizeram parte de sua vida. Necessitava de rever o ambiente como se estivesse na sua própria casa.

No horário da manhã, era sempre incentivada a olhar para um calendário grande, observar e se conscientizar do dia, o mês e o ano em que estávamos vivendo, fazia também palavras cruzadas, os 8 erros do jornal local, e fazíamos jogos diversos (dominó) revitalizando a sua memória. Sua medicação sempre era reajustada diante de inquietação motora e falta de compreensão dos fatos. Sua neurologista foi Norma Campos que por um período de 14 anos e meses sempre lhe acolheu como maior carinho, dedicação e competência.

Desde o período inicial, como filha e responsável pela sua saúde, vida e tratamento, participei de palestras e encontros da ABRAZ (Associação Brasileira de Alzheimer). Precisei parar os atendimentos em um dos consultórios para me dedicar à minha principal paciente, minha mãe. Os papéis foram invertidos: de filha passei a ser mãe. Neste momento de angústia e dor fez- -se necessário paciência, fé e amor.

À tarde, sempre saía com ela para casa dos familiares e amigos, para à missa, passeava de carro com as pessoas de seu convívio como: Mãe Nelci e Elenita que a conheceram quando ainda estava com saúde plena.

Ao mesmo tempo, em julho do mesmo ano (1994) nasceu minha primeira neta, Flávia Maria, que minha mãe fez questão de comprar quase todo o seu enxoval, adquirindo diversas peças iguais, exatamente quando iniciou a decadência desta doença e do seu estado de saúde física e mental. Ela dissera duas frases significativas neste momento: “Esta criança é a minha última alegria”. Algum tempo depois ela me fez um pedido: “Minha filha, nunca me deixe sozinha”. Nesta fase ainda conseguia formar frases e ter certa coerência.

Após 7 (sete) anos, a doença se agravou e, ela precisou de home care. Durante todos este tempo ficou aos cuidados da clínica médica, Tereza Ribeiro, esta sendo minha amiga de infância e vizinha, sempre esteve presente.

TerezaMarinhoNa fase inicial, os principais sintomas eram: fazer perguntas repetidamente, não atacava os botões da blusa corretamente, os sapatos ou sandálias também eram trocados. Além disso, não tinha mais lágrimas para chorar. Sempre queria que sua vontade prevalecesse e, forçava às pessoas a lhe darem os remédios várias vezes.

À proporção que a doença se agravou, mesmo com todos os estímulos, os órgãos foram paralisando e foi necessária a sonda nasogástrica, iniciando dessa forma uma vida vegetativa 11 onde era preciso fazer massagens em todo o corpo para estimulação. Foi acompanhada por uma equipe multidisciplinar formada por fonoaudióloga, fisioterapeuta, e os cuidadores que se revezavam para não haver desgaste emocional diante dessa enfermidade.

No decorrer desse período, era preciso que à minha mãe escrevesse o sue nome completo, como exercício, diversas vezes, reconhecesse às pessoas nas fotografias, se lembrasse de fatos como: casamento, nascimento dos filhos, sua escolarização, seu piano, sua infância e adolescência. Estes, não eram esquecidos, faziam parte de sua memória seletiva.

Quando começou a esquecer e não reconhecer às pessoas mais próximas, neste momento, é que sentimos uma tristeza muito grande e que tivemos de agir, pensar e fazer tudo por ela, adivinhando suas necessidades e pensamentos.

TerezaMarinho2Por ser uma paciente diabética, sempre contou com a endocrinologista Heronilda Borges, que sempre lhe atendeu antes de todos os pacientes devido a sua inquietação, prestou seus cuidados médicos e depois, passou a atendê-la em domicílio por conta da sua debilidade física.

Hoje, algumas medicações orais ou adesivos retardam à evolução rápida dos sintomas, em até 10 ou 12 anos. Mas, mesmo assim, tem que haver uma equipe multidisciplinar, colaborativa, unida para que este paciente tenha uma vida aparentemente salutar como se não estivesse comprometido.

Vale salientar que as pessoas com mal de Alzheimer devem ser vigiadas pelos familiares e/ou cuidadores. Em relação aos cuidados essenciais para que elas não sofram maus tratos como: violência, doses excessivas de medicação, falta de asseios corporais e etc.

Durante o dia e também ao deitar eram colocadas músicas religiosas e de cantores que ela apreciava (Roberto Miranda, Altemar Dutra) para haver o relaxamento e à recordação deste tempo feliz. Enquanto estávamos na sala, colocávamos o CD de Altemar Dutra, “encosta sua cabecinha no meu ombro e chora”, neste momento me pedia para dançar com ela, e encostava a cabeça no meu ombro. Era neste momento que ficava mais calma e fazia uma retrospectiva da sua vida.

Bem no inicio enquanto os sintomas estavam surgindo, sua personalidade sofreu modificações, utilizava de palavras inadequadas e fazia comentários indevidos, onde às implicâncias era justamente com as pessoas que mais amava.

AGRADECIMENTOS

Sou grata a Deus pela família que me foi presenteada por Ele, onde tive pais maravilhosos, um casal muito unido onde a base de tudo era e é o amor.

Ainda agradeço ao meu irmão Bebeto que é o meu apoio, o melhor amigo de todas as horas.
Meu esposo Ailtom também foi fundamental na dedicação e paciência. Ao levantar, dizia sua primeira frase: “Bom dia D. Tereza”. Sempre esteve ao meu lado dando suporte em todos os momentos.

A dedicação da minha filha Flávia Tereza, como profissional da área de saúde (Enfermeira Ana Néry) e neta, que foi essencial no tratamento e revezamento hospitalar.

A bisneta Flávia Maria (Bióloga) também contribuiu nos cuidados, vigilância e carinho onde havia empatia das duas.

Agradeço às minhas tias: Tia Herun, Tia Beth, Tia Berta, Tia Laís que em João Pessoa era assistida por elas, bem como Tia Ruth, que em Olinda a visitava diariamente e sempre lhe ajudava com todo o carinho. Outra pessoa que muito contribuiu foi a cuidadora Miminha, que sempre a tratou com carinho, respeito e dedicação.

Todos da família colaboraram. Novamente agradeço a Deus por me ter concedido esta profissão de psicóloga, da qual me orgulho e me realizo, que faz de mim um ser humano sensível, capacitado para assumir uma missão de “ser mãe”, amiga, terapeuta e curadora da minha própria mãe, com toda a dignidade, paciência, amor e sem perder a consciência dos nossos valores.

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