Desaparecidos – por: Marcos A.M. Bittencourt

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MarcosBittencourtEis aqui um tema que muito pouco é falado, uma “palavra silenciosa” que traz muito sofrimento a quem espera seu(ua) querido(a) a qualquer momento bater à porta de casa dizendo que está vivo. Apesar do apoio da novela Explode Coração (Glória Perez, 1995/1996), essa é uma dor que passa praticamente invisível aos olhos da sociedade.

O aparecimento de fotos de crianças desaparecidas nos capítulos da novela ajudou a encontrar 60 crianças até o fim da novela. De acordo com a Polícia Civil de Pernambuco (http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/pernambuco-registra-media-de-tres-desaparecimentos-de-criancas-e-adolescentes-a-cada-dia-diz-policia.ghtml) o estadoregistra média de três desaparecimentos de crianças e adolescentes a cada dia, tendo em 2016 o registro do desaparecimento de 1.104 menores, cujo índice de encontro é de 85% a 90%. Mas fica aí uma dor para 10% a 15% de famílias que não têm o mesmo alívio, o do reencontro.

Quando podemos considerar que alguém está desaparecido? Convém informar que não existe o critério de se considerar desaparecida a pessoa que não é encontrada em 48 horas. Isso geralmente é uma orientação da Polícia Civil que muitas vezes se nega a fazer o BO por achar prematuro demais. A lei federal 11.259 de 30 de dezembro de 2015 determina que as delegacias iniciem as buscas por crianças e adolescentes assim que boletim de ocorrência seja registrado, independente do tempo em que a criança esteja desaparecida.De acordo com o autor da tese “Desaparecidos civis: conflitos familiares, institucionais e segurança pública”,o sociólogo e pesquisador Dijaci David Oliveira,“o desaparecido civil se caracteriza como uma pessoa que deixou sua família e seu laço afetivo e nunca mais foi vista, sem manifestar anteriormente o desejo de partir”. Mas, por que as pessoas desaparecem? Um dos motivos é a violência doméstica (que responde por boa parte dos casos), mas também pode ser resultado da criminalidade urbana, de problemas de saúde, de acidentes variados, negligência (crianças ou outros dependentes que se perdem dos pais ou responsáveis), por causa do consumo de drogas, entre outros, explica Oliveira. Outras possíveis causas pelas quais as pessoas desaparecem são: depressão, drogas, Alzheimer e problemas mentais.

Com a demora de informações sobre o desaparecido e o avançar do tempo que não traz de volta o ente querido, as possibilidades de transtornos na família são evidentes. O isolamento das pessoas com o aparecimento da depressão pode ocorrer. Cada qual com o seu silêncio e sua dor. Ou também, em função de um jogo de culpa, pode ocorrer uma desestruturação na família com separação e divórcio. Alguns podem até tentar compensar esse sofrimento com o uso de álcool e drogas. A produtividade no trabalho é afetada de forma prolongada, diferentemente de um luto por morte em que essa produtividade é afetada temporariamente. Isso porque se trata de um luto que não consegue ser iniciado nem acabado. Eis aqui parte da dinâmica psíquica do parente do desaparecido. Não se tem um corpo vivo ou morto. Chora-se pelo incerto e pelo duvidoso, chora-se por aquilo que se espera mas que não vem. Há um sentimento de culpa aí. Hugo desapareceu aos 10 anos de idade. Francisca, a mãe, ao registrar o B.O., ouviu na delegacia: “Meus filhos não brincam na rua como os seus”. Francisca vestiu-se de mendiga e passou noites inteiras na Cracolândia, procurando seu filho Hugo. Mas também tem um sujeito dividido entre o medo da morte desse parente desaparecido e a esperança de que esteja vivo. A pessoa se agarra a qualquer coisa que simbolize ou que lembre o desaparecido, um objeto, um retrato, uma peça de roupa, uma informação passada por alguém (por mínima que seja) como se isso pudesse fazer resistir em suas mãos o seu desaparecido. Diria que a incerteza é combustível para a Esperança, na medida em que se crê contra a incerteza. “Tenho certeza que a Fabiana está viva. A esperança de encontrá-la é o combustível que move a minha vida” (Ivanise Esperidião, mão de Fabiana, 2012).

Como a família pode lidar com uma situação dessas? Não é fácil. Qualquer coisa que se diga aqui esbarra num sofrer que não se conforma a qualquer argumentação de consolo. Mas, é preciso lidar minimamente com essa situação e tudo começa com a tarefa de romper com o isolamento, pois o isolamento é lugar de culpa e o lugar de culpa é também um lugar de autopunição, um sofrimento a mais. Se está difícil, convém buscar apoio profissional seja através da Psicoterapia individual, seja através da Psicoterapia de família. Buscar laços com outros que tenham dor semelhante, através de grupos operativos e associações organizadas para essa finalidade. Esse é o momento de estar com pessoas, cercado de amor e amizade. Por fim, a pessoa se encontra numa tarefa de ressignificação da existência, através da busca de motivos pelos quais possa continuar existindo, lutando. Mais informações no site Desaparecidos do Brasil( http://www.desaparecidosdobrasil.org/ ) e na página do Comitê Internacional da Cruz Vermelha-CICV ( https://www.icrc.org).

Marcos A.M. Bittencourt – Psicólogo Clínico

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