A sombra amiga… – Socorro Capiberibe

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Todas as tardes Socorrinho saía com sua mãe. Estava se recuperando de um problema de saúde que a deixara muito debilitada. Precisava se readaptar à vida normal, das pessoas normais, fora dos limites do seu portão.

Durante anos esteve prisioneira de sua própria casa – sua “gaiola dourada” – como costumava chamar, vítima de todos os medos que a mente humana pode fabricar.

mae-socorro-capiberibeO mundo lá fora, além dos muros que a protegiam, a assustava. Criara um mundo todo seu, onde se escondia de tudo e de todos que pudessem, de alguma forma, provocar-lhe algum desconforto ou embaraço; qualquer coisa que representasse perigo ou desencadeasse medo. Seus amigos – os únicos que podiam ter acesso a esse mundo tão limitado – restringia-se a sua família.

Suas atividades: cuidar de plantas, peixes, passarinhos, fazer tricô, ler, ouvir música, assistir novelas. A vida lá de fora chegava até ela através da tela de tv.

Era dotada de uma sensibilidade extraordinária; amava as artes, estuda va a vida dos mestres da pintura e dos compositores clássicos famosos; conhecia toda a obra de Chopin e apreciava a beleza singular da pintura de Renoir.

Tinha uma paixão especial pelos livros e pela música. Gostava de escrever e tocar violão. Tinha um bom arquivo de poemas e canções de sua autoria; entretanto guardava tudo só para si… Era um patrimônio restrito ao seu mundo particular; abrigado dentro dos limites de sua casa.

Sempre fora assim?
Não. Por que ficou assim?
Também não sabia.

Foi uma criança normal igual a todas as crianças da sua idade, com medos e sonhos próprios da infância. Teve uma adolescência saudável, sem desajuste ou rebeldia e foi uma jovem feliz. Frequentou colégios, cursou universidade. Teve muitos amigos, fez muitos passeios, foi a muitas festas. Brincou, dançou, namorou; fez tudo que teve direito e que a vida lhe proporcionou, dentro de uma juventude normal e saudável. Casou, teve filhos, constituiu uma família. Teve toda uma estrutura favorável e bem consolidada, que podia proporcionar uma vida harmoniosa e tranquila.

Onde estava o erro?
O que foi que mudou? Por que a reviravolta em sua vida?…
Não tinha resposta.

Nada explicava o medo que de repente se instalara em sua vida…

Como entender que o mesmo mundo – outrora tão fascinante e sedutor – fosse de um momento para outro o grande monstro, o terrível fantasma, que tanto a assustava e a mantinha cativa do seu próprio lar?

Como explicar tudo isso, se ela própria não entendia?…

A cabeça humana ainda é a “caixa preta” do avião. Talvez nos compêndios da psicologia e da medicina psiquiátrica, estivesse a resposta.

Existem coisas que simplesmente acontecem na vida da gente, para as quais não se tem uma explicação.
Coisas, que a gente não quer e não pede que aconteçam, mas quando surgem tem que se buscar a solução.

Os únicos passeios de Socorrinho eram sempre feitos de carro… Era como se o automóvel fosse uma extensão de sua casa. Dentro dele e em companhia da família, sentia-se segura; desde que não precisasse saltar em nenhum lugar. Nele, podia ir tomar uma água de coco na praia olhando o mar; parar na sorveteria e tomar um sorvete ou ir a uma lanchonete e comer um sanduíche sem descer do carro. Era de fato uma vida muito limitada; um mundo muito restrito e particular, o de Socorrinho.

Um dia, Socorrinho resolveu se deixar ajudar. Permitiu-se ser acompanhada por uma psicóloga. Queria sair da clausura; fazer parte outra vez do mundo dos “normais” e viver novamente a vida com toda intensidade, gozando de toda liberdade que alguém pode ter. Tinha dado o primeiro passo. Os outros passos se dariam naturalmente, lentamente, gradativamente… Afinal, Deus não criou o mundo num dia só… E todo recomeço é difícil; não se faz da noite para o dia. Tudo tem um momento certo para acontecer. E a recuperação de Socorrinho também aconteceria; era só esperar.

Matriculou-se numa aula de hidroginástica junto com as filhas. Tinha medo de ficar só na piscina sem alguém da família e com pessoas estranhas. “E, se passasse mal? Se cansasse muito? E se desmaiasse?…” – as filhas lhe davam segurança… Cuidavam dela… Ficavam atentas a qualquer expressão de cansaço ou de medo no rosto de sua mãe. Isso a tranqüilizava, mas também a entristecia. Era incrível pensar que ali naquela mesma piscina há anos atrás, era ela, Socorrinho, quem entrava com suas filhas ainda criancinhas, carregando-as no colo, para aprenderem a nadar. Agora era o contrário, as filhas já moças, tomavam conta da mãe. A vida tem desses contrastes e ainda bem que podia contar com a ajuda das suas filhas.

Os benefícios da água para o corpo são realmente maravilhosos e Socorrinho passou a curtir ao máximo as suas aulas. Começou a sentir-se melhor com ela mesma. Tinha mais disposição durante o dia. Dormia bem à noite e relacionava-se melhor com as pessoas. Fez amizades com todo o grupo, chegava a trocar receitas com as colegas… Começou a curtir o seu bronzeado como nunca e mal conseguia esperar pela hora das aulas, tanto que gostava daquela atividade. Aceitou um desafio com o professor: iniciou uma dieta e se propôs a trabalhar o corpo dentro da água, executando com a maior dedicação todos os exercícios. Começou a perder peso. O professor dava o maior estímulo. Ficava atento a qualquer erro e corrigia no ato. Em pouco tempo, Socorrinho dispensou os cuidados das filhas… Elas não tinham mais que continuar frequentando as aulas se não quisessem e realmente elas não quiseram. Preferiram se matricular numa outra modalidade de ginástica, própria para a idade delas e com uma turma também mais jovem. Socorrinho não se intimidou. Passou a fazer as aulas sozinha. Começava a resgatar sua auto-confiança. Era o tratamento surtindo efeito… O médico e a psicóloga, juntos. Um trabalho paralelo…  Remédio e exercícios lado a lado, dia a dia, sem descanso.

Comprou um teclado e começou também a ter aulas particulares. A música é um estado de espírito, algo Divino e maravilhoso, capaz de harmonizar corpo e alma numa perfeita comunhão… E ninguém poderia amar mais a música do que Socorrinho. Quando sentava diante do teclado, seus dedos dedilhavam suavemente as melodias enquanto sua mente era toda descontração e paz.

As vezes, começava um exercício prescrito pela professora, mas bastava um acorde em falso ou uma nota descuidada, que a fizesse lembrar de tal melodia… E lá se ia Socorrinho tentar tirar a tal música… Concentrava-se nas notas, apurava os ouvidos e esquecia da aula… Alguns minutos depois era capaz de tocar a melodia inteira – apenas dedilhando – e corria para copiá-la num papel. Precisava mostrá-la à professora na aula seguinte. A música também passou a ter uma presença maior no seu tratamento.

Outros exercícios foram sendo acrescentados à vida de Socorrinho. Era preciso sair à rua sozinha. Tinha que se libertar da sua gaiola dourada… Tinha que desmanchar os nós que a prendiam em tantos medos. Começou caminhando até a esquina mais próxima, sempre em companhia de alguém. Era difícil; sentia -se insegura; mas insistiu. Dia após dia, o mesmo exercício, até ficar uma coisa normal. Depois, o percurso do passeio foi aumentando até a outra esquina, depois já dobrava a rua e algum tempo depois já caminhava todo o quarteirão. O segundo passo mudou um pouco: agora, em vez da companhia de uma pessoa, fazia o mesmo passeio seguida pelo seu cachorrinho de estimação. Era incrível como um simples animalzinho conseguia lhe passar segurança e diminuía a sua solidão. Finalmente conseguiu sair sozinha e percebeu que não era tão ruim assim.

Começava a se sentir “normal”… Já experimentava uma agradável sensação de liberdade… E para tornar o seu exercício ainda mais proveitoso, passou a atribuir-lhe alguma finalidade: comprar o pão na padaria da esquina; algumas frutas no mercadinho do bairro; fazer as unhas no salão mais próximo ou uma compra qualquer no comércio local.

Estava redescobrindo a vida. Era maravilhoso viver. Às vezes, em seu passeio pelo bairro, Socorrinho parava diante de um sobrado antigo e punha-se a admirar a bonita arquitetura da antiga construção, em contraste com a beleza moderna dos novos prédios, que emolduravam as ruas arbo rizadas. Outras vezes surpreendia-se admirando quadros simples do cotidiano: a senhora grisalha, que vinha com a sacola carregada de verduras do supermercado; o senhor de pijama, lendo o jornal na cadeira de balanço do terraço; o menino entregando jornais; a moça vendendo bilhetes de loteria; o homem com o cachorro passeando na calçada; a babá com a criança tomando banho de sol no portão, pessoas entrando e saindo da igreja, caminhonetes carregadas de deliciosas e coloridas frutas… Gente, carros, animais, colégios, lojas, bancas de revistas, jogo do bicho… Um movimento intenso; estava sentindo falta de tudo aquilo.

Cada dia era único. Havia sempre algo novo, aos olhos de Socorrinho, em seu passeio. Ela levantava os olhos para o céu muito azul e agradecia a Deus pela vida. Estava viva outra vez. Sentia-se feliz novamente.

De toda sua caminhada, em busca do tempo perdido, na luta pela recuperação… Dentre as lembranças que guardava dos seus exercícios, uma lhe era especial e destacava-se das demais…

“Certa vez, no início do tratamento, saíra com sua mãe, como fazia todas as tardes, para um passeio de carro pela praia. Desceram do automóvel e sentaram no banco do calçadão para tomar uma água de coco. Depois Socorrinho convidou a mãe para fazerem sua caminhada habitual, pela pista de “Cooper” da avenida; exercício que faziam juntas com frequência. Sua mãe era sua fortaleza; a sua simples companhia dava a Socorrinho a segurança de que ela necessitava. Naquele dia porém, Dona Ruth se recusou; não iria caminhar com a filha. Já estava na hora de Socorrinho caminhar sozinha… – refletiu – e disse que esperaria sentada no banco. Socorrinho voltou a se sentar. Não iria sem a sua mãe. Sentiu-se insegura, frágil, pequena. E veio o medo; e veio o sentimento de impotência. E todos os pensamentos mais tolos tomaram conta da cabeça da jovem mulher, que mais parecia naquele instante uma menina assustada…

“E se eu passar mal? E se eu ficar cansada? E se eu desmaiar? E se isso?  E se aquilo?… Eram sempre os mesmos pensamentos. E Socorrinho não se sentia em condições de caminhar sozinha.

Dona Ruth percebeu a aflição de Socorrinho. Conhecia todos os medos de sua filha e como se pudesse ler o seu pensamento, concluiu: – Você não vai passar mal, minha filha. Nada vai lhe acontecer. Não existe motivo para se sentir insegura. Eu vou estar aqui lhe esperando e se você ficar cansada, eu vou de carro lhe apanhar na outra barraca de coco… por que o medo? Olhe quanta gente caminhando… Você não vai estar sozinha. Você não precisa de bengala, Socorrinho. Já é tempo de caminhar com seus próprios pés.

Socorrinho ouviu em silêncio. Ficou triste, mas concordou. Sua mãe estava certa. Não era eterna; não poderia estar sempre ao seu lado. Estava na hora de tentar caminhar sozinha.

Levantou-se e com passos incertos começou seu exercício. Não olhou para trás uma única vez. Sabia que sua mãe estaria sentada no banco, olhando de longe… Isso já lhe confortava. Nunca o percurso entre uma barraca de coco e outra lhe pareceu tão comprido… E enquanto caminhava, veio-lhe na mente, a lembrança de uma frase que lera num “outdoor”, numa propaganda de sapatos:  “Liberdade é você ir aonde quiser com seus próprios pés…”

De repente percebeu, o quanto era limitada a sua liberdade, naquele momento. Seus pés só conseguiam lhe levar, a distâncias muito pequenas ainda. Seu coração batia forte dentro do peito, de tanta ansiedade. Tentou se distrair para atenuar o medo. Começou a olhar os prédios altos e majestosos da avenida; depois o mar, quebrando em espumas na areia alva; mais adiante um animado jogo de vôlei e ali perto, no banco do calçadão, uma concorrida partida de dominó. Por vezes, diminuía o passo, fitava o céu, respirava fundo e pensava assustada e feliz: “estou conseguindo”. Em determinados pontos do passeio, notou algumas pessoas sorrindo para
ela… Socorrinho era uma pessoa simpática e retribuiu o sorriso, mas achou estranho porque, na realidade, não conhecia qualquer uma delas.

Finalmente chegou à outra barraca; ponto final da sua caminhada. Parou; fechou os olhos e suspirou feliz…- “consegui”… – pensou satisfeita. Ia se virando para trás… Queria medir com o olhar a distância percorrida e acenar para sua mãe… Mas esbarrou em alguém. Assustou-se. Ficou muda de espanto. Dona Ruth sorriu. Estava exatamente atrás dela; colada nela. Seguiu os passos da filha o tempo todo; brincando de sombra.

Socorrinho também sorriu, desarmada. Compreendeu naquele instante, o porquê do sorriso das pessoas. Durante todo trajeto, pensou que estava caminhando sozinha e via naquele momento, que sua mãe estivera com ela todo tempo, protegendo-a, guardando-a, impedindo que qualquer mal lhe acontecesse.

Foi um gesto lindo de sua mãe. Ficou comovida. Enquanto vivesse, lembraria com o maior carinho dessa “sombra amiga” – desse momento ímpar; dessa prova genuína de amor. Socorrinho se recuperou completamente do mal que a afligia: “A síndrome do pânico”. Hoje é uma pessoa normal, saudável, alegre e descontraída. Trabalha, passeia, viaja, diverte-se, dirige seu automóvel, participa intensamente de todo e qualquer evento social – festivo ou solidário; na alegria ou na dor –  profissional, esportivo e religioso, que a vida lhe apresente e que durante dezoito anos de sua vida esteve impossibilitada de realizar.

Contou com a ajuda valiosa de dois profissionais da área de saúde: seu médico, que lhe administrava a medicação para anular os sintomas desagradáveis de uma crise de Pânico, e sua psicóloga, que a acompanhava passo a passo, semana após semana, orientando-lhe nos exercícios diários de readaptação à vida.

Contou ainda com o apoio indispensável de bons amigos e sobretudo, de toda sua família. Sente-se até mais feliz do que antes e bem mais amadurecida, porque afinal o sofrimento amadurece as pessoas e de cada experiência sempre se tira alguma lição. Segundo o seu médico, a doença é uma surra de humanidade… E se isso faz algum sentido, certamente Socorrinho está agora mais humana e mais solidária para enfrentar a vida e disposta a estender a mão para amparar alguém. Agradece a Deus o presente maior: “ o milagre da vida” e atribui a Dona Ruth – (sua SOMBRA AMIGA), uma grande parcela de colaboração no seu restabelecimento.”

Obs.: O conto A SOMBRA AMIGA – extraído da vida real – é parte integrante do livro de minha autoria: O FANTASMA DO PÂNICO OU O FUNDO DO POÇO: COMO ESQUECER? (Relato pessoal sobre a minha experiência com o Transtorno do Pânico).

Agradeço a Deus pela minha mãe Maria Ruth Marinho Capiberibe – a minha sombra amiga. À minha Psicóloga Cristina Jatobá. E ao meu médico Wilson De Oliveira Jr.

Socorro Capiberibe www.socorrocapiberibe.com.br

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