HORA DO CONTO: Companheiros do acaso – Socorro Capiberibe

Por Socorro Capiberibe

socorro-capiberibe-CompanheirosAcasoEla sempre tomava o mesmo ônibus, na mesma hora, no mesmo ponto, cada manhã, durante anos… Sabia exatamente o horário que ele passaria e até os passageiros que freqüentemente ele conduzia.

Era como se fossem todos colegas: do mesmo trabalho ou do mesmo colégio. Uma vez ou outra surgia um rosto novo… Por poucos dias, por muitos dias ou por um dia apenas. Cada um com seus compromissos, em cada um deles uma realidade, em todos eles o mesmo desejo: chegar ao seu destino… E eram tantos e tão diferentes esses destinos!
Alguns se cumprimentavam cordialmente com um sorriso e até mantinham alguma conversa com os que sentavam ao lado. Outros apenas balançavam discretamente a cabeça num gesto de reconhecimento; enquanto outros permaneciam totalmente distantes como se cada vez que se vissem fosse a primeira vez.

O motorista e o cobrador, entretanto, eram os mesmos e parecia conhecer a todos.

CompanheirosAcasoInteressante como o ser humano consegue se expressar mesmo sem palavras. Os olhos falam, a expressão da boca, as rugas na testa, o sorriso, a postura do corpo, o repouso das mãos ou das pernas, tudo tem a sua própria linguagem… O corpo fala por si, muito embora nem todos consigam decifrar.

Ela observava atentamente do seu assento cada companheiro de viagem e tentava traduzir os seus gestos ou até ler seus pensamentos… Algumas vezes acertava e chegava a sorrir da sua intuição. Já conhecia bem o jovem casal de namorados que ocupava sempre o primeiro banco e descia junto no cursinho pré-vestibular.

Sabia quando eles tiravam boas notas e estavam alegres; quando estavam brigados e mal se falavam; quando faziam as pazes e ficavam mais apaixonados e até quando estavam apreensivos e se preparavam para uma nova prova.

Conhecia também o vendedor de enciclopédias, sempre com a sua bolsa carregada de livros e que saía para oferecer nos colégios e repartições. Certa vez sentara ao seu lado e ele tentou lhe vender a versão mais atualizada da BARSA por um preço promocional incrível e em não sei quantas prestações…

Havia ainda a freira – estudante de psicologia – que descia diariamente na porta da Faculdade. Ela sempre estava com um livro sobre o comportamento humano na mão ou com o seu inseparável caderno de várias matérias onde registrava as suas anotações sobre as aulas. Também já tivera oportunidade de sentar junto dela…

E, assim, de uma forma ou de outra, ia mantendo em silêncio essa relação telepática com cada um deles.

Certa manhã ao pegar o ônibus, após fazer as suas constatações habituais, percebeu um novo passageiro e pôs-se a fazer conjecturas sobre o novo colega.

Observou-lhe a fisionomia tranqüila e quase feliz… O porte esguio e bem trajado… O modo confiante com que segurava a pasta e a expressão de admiração no olhar para com tudo o que via de passagem.

… Eu acho que ele não é daqui… Talvez esteja chegando ‘a cidade pela primeira vez… O que será que ele faz?…

Sentindo-se observado o jovem olhou-a por alguns instantes, passeou rapidamente os olhos pelos outros passageiros e em seguida voltou-se a contemplar pela janela.

No dia seguinte lá estava ele outra vez…

Quando ela entrou, ele a cumprimentou com a cabeça e indicou-lhe um assento vazio ‘a sua frente.

Durante aquela semana e na outra semana e em todas as semanas seguintes, quando ela entrava no ônibus o jovem já estava nele.

… De onde ele vinha? Ela não sabia. Para onde ele estava indo… Ela também não sabia, uma vez que sempre descia antes dele…

Algumas vezes sentava ao lado dele quando o assento estava livre. Outras vezes ele lhe cedia o lugar quando o ônibus estava cheio… E na maioria das vezes – sempre que podia – ele dava um jeito de colocar o paletó e a pasta sobre o assento vizinho para guardar o lugar para ela.

Chegavam a conversar sobre coisas corriqueiras: a previsão do tempo, o trânsito, alguma noticia do jornal, alguma reportagem de revista ou algo visto na televisão. Eram companheiros de viagem.
Tinham um encontro marcado todos os dias no mesmo ônibus. Formou-se um agradável e cordial elo entre eles… Uma mistura de satisfação, respeito e simpatia. Era quase uma alegria aquele encontro de todo dia.

Veio o fim do ano…

A freira concluiu o seu curso de Psicologia e despediu-se afetuosamente do cobrador e do motorista. Não precisaria mais vir todas as manhãs para a Faculdade. Sentiria falta deles, mas qualquer dia desses, quem sabe, pegaria o ônibus para revê-los. Outros passageiros precisariam do seu assento.

Chegou também o vestibular…

A jovem aluna conseguiu entrar para a Faculdade, mas o namorado não foi aprovado no concurso e agora viajava sozinho no ônibus todos os dias para o cursinho.

Novos rostos surgiam entre os passageiros e passavam a integrar aquele coletivo.

Certa manhã ela tomou o ônibus em seu horário habitual e sentou-se ao lado do companheiro que a aguardava com um sorriso e que há um ano guardava o seu lugar…

Falaram sobre a chuva que caiu á noite, sobre a manhã que estava mais fresca, sobre o inverno que se anunciava mais cedo, o frio no sul do país, o filme da véspera na televisão…

Chegou a sua parada. Quando ela levantou-se para descer, ele a acompanhou. Pela primeira vez eles desceram juntos na mesma parada. Surpresa, ela perguntou:
– O que houve? Não vai ao trabalho hoje?

Ele tomou a mão dela, entre as suas, e falou cheio de respeito e gratidão…

mais-detalhes livro-SocorroCapiberibe– Na verdade hoje eu vim só para me despedir. Fui transferido para uma filial em outra cidade… Não poderia viajar sem falar com você.

Retirou do bolso um cartão contendo o novo endereço e o telefone, abraçou-a com força e atravessou a rua para tomar o ônibus de volta para casa.

Com uma estranha sensação de vazio dentro do peito – uma espécie de saudade do amigo anônimo – ela olhou o cartão que acabara de receber e deu-se conta do tamanho do afeto que nutria por ele.

Na manhã seguinte, quando ela pegou o ônibus para o trabalho, o vendedor de enciclopédias ofereceu-lhe o assento e começou a lhe mostrar uma nova coleção de dicionários ilustrados, de última geração, por um preço imperdível e uma forma de pagamento sem igual…

DO LIVRO DA AUTORA: SOCORROCAPIBERIBE.COM.VOCE//FACE A FACE (MEMÓRIAS)

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