Associação doa Amigos dos Pacientes do Pânico em Recife – AMPARE: Da idealização – por Wilson de Oliveira Jr.

*Wilson de Oliveira Jr.

“Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores” Carlos Drummond de Andrade

O entendimento a respeito da relação entre emoções e saúde é bastante antigo. Galeno, por exemplo, no séc. II A.C., já afirmava que determinados tipos de personalidade apresentavam maior susceptibilidade a desenvolver doenças. Portanto, a ideia de que as emoções surtem impacto na saúde já vem da Antiguidade.

Relacionar as emoções com alterações da função cardíaca remonta há mais de cem anos, quando o médico inglês, Sir Willian Osler, descreveu, em 1892, que pacientes portadores de doença coronária apresentavam similaridade comportamental. Porém, foi só a partir da década de 80, do século passado, que houve maior progresso na tentativa de integrar fatores psicossociais como contribuintes para o desenvolvimento de doenças orgânicas.

artigo27bA ansiedade é uma das causas mais comuns que levam os pacientes a procurar ajuda médica. Como o transtorno apresenta a combinação de manifestações somáticas, frequentemente relacionadas ao sistema cardiovascular, o cardiologista é o primeiro a ser procurado. Quando predominam os sintomas somáticos, o diagnóstico nem sempre é realizado.

Outro fator que não deve ser esquecido é o simbolismo imputado ao coração e devido aos sintomas somáticos, frequentemente há uma ampliação da ansiedade. Considerado o órgão de maior simbolismo do corpo humano, ele carrega em si deferentes crenças e valores. Ao longo da História, depara-se com o coração simbólico com vários significados: força vital, coragem, vida e amor. Na própria Bíblia, livro mais lido da humanidade, a palavra coração é citada 873 vezes. O Provérbio 4:23 diz “acima de tudo, guarda o teu coração, pois ele é fonte de vida”. Para Hipócrates, considerado o pai da Medicina Ocidental, o coração era considerado a sede da alma.

O transtorno do pânico (TP) é uma experiência de ansiedade levada ao extremo, resultado de um grau de desorganização orgânica e psíquica em que o indivíduo experimenta terríveis reações físicas e psicológicas, tendendo, assim, a perder completamente a capacidade de reagir aos desafios do mundo externo. O TP é uma das formas de ansiedade mais frequente na prática clínica, sendo responsável pelo sofrimento de grande número de pessoas, por ele atingido.

A palavra pânico vem do grego panikon, (Pã), que tem como significado susto ou pavor repetitivo. Na mitologia grega, o deus Pã provocava, com seu aparecimento súbito em qualquer lugar, urna intensa reação de susto e de horror, nos pastores e camponeses. Daí os portadores de TP apresentarem medo violento e repentino, que surge sem causa aparente, gerando neles um grande sofrimento.

Descrito, em 1980, pelo Manual de Diagnósticos e Estatística da Associação Americana de Psiquiatria, o TP foi reconhecido como entidade nosológica diferente dos outros transtornos de ansiedade e tem sido um dos mais estudados.

Inicialmente, pensava-se que a doença estivesse ligada à esfera cardiovascular pela frequência com que os pacientes apresentavam e apresentam sintomatologia sugestiva de lesão cardíaca, como: dor e desconforto no peito, sensação de falta de ar ou de sufocação, palpitações (sentir o coração bater forte), sudorese, dentre outros. Tendo em vista a expressividade dos sintomas cardiorrespiratórios, várias denominações relacionadas ao sistema cardiovascular foram-lhe atribuídas, “coração irritável”, “neurose cardíaca”, “taquicardia nervosa”, “astenia neurocirculatória”, “estado circulatório hiperdinâmico adrenérgico”. Vale ressaltar que nenhum autor reconheceu, na época, o papel central que a ansiedade exercia na gênese dos sintomas cardiovasculares. O reconhecimento dessa relação só foi descrita pelo psicanalista Sigmund Freud, no início do século passado, denominando-a, assim, de “neurose de angústia”. Com a presença de sintomas relacionados ao aparelho cardiovascular, seus portadores procuram, como primeiro atendimento, o cardiologista, quer em consultórios, quer em emergências, acreditando serem vítimas de um “ataque cardíaco”. Com a repetição dos sintomas, a insegurança e o desespero tomam as rédeas da vida dos indivíduos, impactando negativamente na sua qualidade de vida e levando-os a procurar outros especialistas. Não raro recebem o veredicto “você não tem nada”, “é só cabeça”, “é psicológico” ou, ainda, “vai passar”.

Apesar da sua alta prevalência, pacientes portadores de TP são vítimas de discriminação, preconceito e estigmatização, muitas vezes vindo dos próprios profissionais da área da saúde. Infelizmente devido a falta de diagnóstico precoce, muitos desses pacientes são submetidos a excessivos exames e podem desenvolver complicações. Algumas vezes, ainda, recebem uma dose adicional de culpabilidade, sendo responsabilizado pela sua própria doença. Lamentável, mas verdadeiro, que, isso ocorra ainda nos dias atuais. Tal atitude profissional caracteriza atuação desumana e antiética.

Por ser o TP muito frequente na prática clínica, é importante que todos os médicos sejam capazes de reconhecê-lo e que possam orientar e encaminhar os pacientes a tratamento adequado. Atualmente dispomos de uma gama de tratamentos farmacológicos e psicoterapêuticos que apresentam eficácia para a maioria desses pacientes.

Dentro desse contexto – diante da grande demanda de pacientes do consultório e do ambulatório do Hospital Universitário Oswaldo Cruz-UPE e sentindo a necessidade de consolidar uma abordagem integral no atendimento, em abril de 2001, estimulou-se, de forma pioneira em Pernambuco, a criação da ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DOS PACIENTES DE PÂNICO DO RECIFE-AMPARE. Paulatinamente, a ideia foi abraçada por alguns pacientes, familiares e simpatizantes, de forma afetiva e efetiva. Naquele momento, contamos, especialmente, com a dedicação, a garra, a determinação, o despreendimento e, acima de tudo, a vontade de ajudar ao próximo de Socorro Capiberibe e Wagner Maia.

Juntamente com outros membros da Associação, e apoio de entidades médicas captaneadas pelo Dr. Ricardo Paiva e, posteriormente, pela Sociedade de Medicina de Pernambuco, na pessoa da sua Presidente Drª Jane Lemos, metas foram traçadas e a cada ano novas conquistas surgiam. Socorro tornou-se a presidente da AMPARE e vem trabalhando, até os dias atuais, de maneira incessante, com o objetivo de ampliar a área de atuação da Associação. Inicialmente, o atendimento era restrito a pacientes portadores de transtorno do pânico, mas, graças ao sucesso conseguido, outros pacientes portadores de transtornos mentais também passaram a ser assistidos.

Composta por uma equipe multidisciplinar, formada por médicos e psicólogos, a AMPARE tem cumprido o seu papel social propiciando um atendimento humanizado, digno e de custo acessível, além de estimular a. melhoria do vínculo entre profissional da saúde, paciente e seus familiares. A integração da equipe da saúde tem apresentado um papel relevante no sucesso terapêutico, em termos de presença, atendimento e disponibilidade, o que se traduz numa postura humanizada. Por meio de psicoeducação (participação em eventos, palestras e congressos de áreas afins) os membros da Associação têm contribuído para minimizar o sofrimento dos pacientes que padecem com o TP. Por meio de suas ações, observa-se impacto positivo na melhoria da qualidade de vida, adequação laboral, inclusão social, quebra de mitos, paradigmas e preconceitos, bem como convívio família. Tais fatores tem favorecido a adesão ao tratamento por parte dos pacientes.

Nestes 15 anos, a AMPARE tem contribuído para que o atendimento aos pacientes se estabeleça dentro de uma postura de assistência em um contexto biopsicossocial. O seu trabalho torna-se mais significativo se considerarmos que a saúde mental ainda é uma área muito negligenciada, devido ao estigma ainda presente e aos limitados recursos financeiros a ela destinados. Parabéns a todos que colaboraram e colaboram com dedicação e afinco à administração e às atividades da Associação tomando-a uma instituição ética, comprometida com o bem estar social, forte e atuante, em total sintonia com os anseios de seus idealizadores! A AMPARE reforça um lema que tenho defendido em minha vida que a verdadeira lucidez é não esquecer de sonhar. Obrigado pela realização do sonho.

*Professor de Cardiologia da Universidade de Pernambuco Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática -ABMP/ 2006-2008 Presidente de Honra da AMPARE

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