Relação médico-paciente: um elo a ser preservado

Wilson de Oliveira Jr.
(PSICÓLOGO)


Apesar de todo desenvolvimento tecnólogico, com suas virtudes e possibilidades, e também por conta dele, o médico não mais enxerga um paciente, e sim um caso, um orgão doente. (F. Dantas, 1989).

Tratar o doente é mais do que conhecer a doença. Diante de uma doença qualquer o paciente não só no plano intelectual, mas também no emocional, procura estabelecer hipóteses e teorias sobre aquilo que lhe ocorre. Surge então um estado emocional em estreita relação com o que sentiu e o que pensou. Por existir uma grande relação entre mente, emoção e coração, qualquer alteração mental associada a dor ou ao prazer se estende ao coração.

O coração é o foco freqüente de queixas de fundo emocional, não só por causa da resposta real ao estresse psicológico, como também por causa da sua importância psicológica e simbólica. Órgão do ser humano mais carregado de simbologia – templo das emoções – o coração é figurado como o centro da vida e da morte, adquirindo o poder de transformar o comportamento das pessoas. Por causa das fantasias criadas pelo mito do cora- ção e pelas alterações causadas pela própria doença, torna-se necessária – especialmente em Cardiologia – uma abordagem que vá além do coração orgânico; freqüentemente o paciente apresenta insegurança e certa instabilidade emocional. Por este e por outros motivos, é de vital importância que cardiologista e paciente tenham uma relação de confiabilidade.

Paradoxalmente, a evolução tecnológica representa obstáculo a uma relação médico-paciente mais pró- xima. Embora tenha trazido grandes benefícios ao diagnóstico e ao tratamento das doenças cardíacas, a excessiva aplicação de sofisticados equipamentos resulta cada vez mais na desconsideração da parte humana, assim como da singularidade de cada caso. A singularidade de cada caso não pode ser relegada nem no diagnóstico nem no tratamento, uma vez que os aspectos psicofísicos que envolvem o adoecer de um paciente apresentam características próprias desse paciente, diferenciando-o de um outro com patologia idêntica.

O paciente sofre e espera ajuda do médico; o seu sofrimento nunca é puramente físico – está sempre associado a um componente emocional, que está presente ou que as vezes predomina no quadro clínico. Portanto a consulta ao médico não significa apenas o desejo de acabar com a doença orgânica, mas também a pretensão de eliminar o temor escondido e a angustia muitas vezes inconfessada. Não encontrar a atenção desejada, pode trazer ao paciente dor moral, bem como sensação de abandono e de frustração, o que pode acarretar dificuldade ao tratamento.

Ouvimos com frequência, quer em consultórios públicos, quer em consultórios privados, queixas de pacientes relacionadas ao descaso de alguns médicos no que se refere aos aspectos emocionais. Embora não se justifique totalmente, este conflito vivenciado, hoje, na relação médico-paciente, deve-se em parte, a atual formação médica, que continua privilegiando o lado organicista e tecnicista, em detrimento de uma formação de caráter psicossomático. Outro aspecto a se considerar é que, com a progressiva perda do caráter liberal da profissão, o médico para sobreviver, muitas vezes é obrigado a assumir vários empregos por uma irrisória remuneração por parte de convênios ou de algum órgão pú- blico, levando-o assim, a atender a um grande número de pessoas num pequeno espaço de tempo, o que em muito tem dificultado uma prática médica mais humanizada.

De tudo o que foi dito, pode-se concluir que, embora o avanço tecnológico deva ser utilizado, as máquinas jamais poderão aquilatar e compreender o sofrimento do paciente, tampouco sanar os seus temores.

É imprescindível pois, que a relação médico-paciente seja estabelecida em uma situação de empatia, onde por um lado, o paciente possa expor suas dúvidas, temores e angústias, e por outro, o médico possa compreender o que realmente está se passando com o paciente a nível físico e emocional, uma vez que todo ser humano é produto de um complexo que envolve o biológico, o emocional e o social.

 

(Wilson Alves de Oliveira Jr. é médico cardiologista, professor adjunto de cardiologia da Faculdade de Ciências Médicas da UPE, Presidente de Honra da AMPARE.)

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