A DOR DO NOSSO TEMPO

Ana Paula Hawatt
(PSICÓLOGO)

“As pessoas precisam sentir que é a própria mudança o aspecto constante da existência” Fritjjo Capra

AMPARE, como todos sabem, é uma associação que visa assistir as pessoas acometidas de alguns transtornos de ansiedade, sobretudo o transtorno do pânico e de depressão. Mas por que a demanda cresce a cada dia? O que leva as pessoas a serem tão ansiosas? O que em nosso tempo motiva as pessoas a pensarem tanto no futuro? Por que não conseguimos vivenciar o nosso dia a dia como forma de usufruir melhor de nossos momentos? Muitas vezes deixamos de viver mesmo quando o corpo físico está presente, mas nossos pensamentos nos levam para tão longe, para lugares onde não temos nenhum domínio, ou porque é passado, ou porque ainda esta por acontecer (futuro). Mas uma coisa percebemos: a nossa impotência diante do acontecimento gera ansiedade. A ansiedade antecipatória nos mobiliza e causa em nosso organismo alterações orgânicas, gerando uma sensação de desconforto. Com isso o nosso comportamento é imediatamente modificado, passando muitas vezes a ser regido por esse estado mental. Diante de tantos acontecimentos, na maioria desfavoráveis e ameaçadores, nos sentimos desamparados e entregues à própria sorte. Os tempos mudaram; saímos de uma época onde obedecíamos as regras e normas ditadas pelo poder regulador, que eram as instituições como igreja e organizações políticas, cujos preceitos eram formas normatizadoras do comportamento; sabíamos muito bem como agir, o que era certo e errado. Porem os homens, sempre de alguma forma, questionaram e transgrediram o que estava proposto, as instituições se enfraqueceram e as leis começaram a ser questionadas, as verdades préestabelecidas passaram a ser relativas e subjetivas. Com esse enfraquecimento das instituições o homem assume a sua autonomia e a responsabilidade de suas escolhas, do que é bom ou mau para ele mesmo; isso começa a pesar sobre seus ombros; como dirigir sozinho nosso destino? Essa liberdade tem um preço: a plena responsabilidade de nossas escolhas, ou seja, de acertos e erros e ai vivermos o tempo inteiro decidindo e julgando o que é melhor para nós mesmos.

doretempoAssim, muitas vezes perdemos o outro de vista, gerando um afrouxamento cada vez maior dos laços afetivos, uma vez que priorizamos a nós mesmos e deixamos a natureza e o outro em segundo plano. Isso é a essência do individualismo: os discursos ideológicos perderam o sentido, a desintegração social esta no auge, haja visto a falta de ética que impera no Brasil e no mundo, pois prioriza-se o interesse particular em detrimento do bem comum. Isso que aparentemente nos estrutura como sujeito hiper- -moderno, na verdade nos fragiliza. O homem é um ser de sociedade, que precisa fundamentalmente do amor do outro para viver. É no reconhecimento e principalmente no cuidado do outro que ele se constitui. Com essa dificuldade de amar verdadeiramente os outros nos perdemos de nós mesmos, nos desconhecendo. Mas como evitar o medo de não nos conhecer? E de não ser amado pelo próximo? Que nome tem esse vácuo que me distancia de mim e do mundo que habito?

Acredito que precisamos voltar a respeitar a natureza, amar ao próximo como forma primeira de sobrevivência e de estruturação psíquica, pois só quando nos relacionamos bem e nos damos verdadeiramente ao outro é que criamos um sentimento de pertencimento ao mundo que habitamos, nutrindo a nossa função humana de semear a paz, o amor e o respeito entre os homens, construindo um mundo mais acolhedor, nos tornando cada vez mais seguros de si e quem sabe, atenuando esse medo que nos acomete e que faz nos sentirmos estranhos a nós mesmos e ao mesmo tempo fora do lugar.

Ao procurarmos nos conhecer melhor, tomamos consciência de nossos pensamentos e ações, onde diferentemente de alguns acontecimentos esses são passíveis de nosso domínio. Uma mente sã lhe dará a propriedade de si e de seu corpo. Assim nenhum pensamento lhe invadirá sem sua permissão, nada será antecipado sem que não esteja no momento de acontecer. Domando assim essa ansiedade que gera sofrimento e muitas vezes dificulta a nossa vida, nos tornando prisioneiros de nós mesmos. *Psicóloga/Diretora Administrativa – integrante do SPPA- Serviço de Psicologia e psiquiatria da AMPARE.

(Wilson Alves de Oliveira Jr. é médico cardiologista, professor adjunto de cardiologia da Faculdade de Ciências Médicas da UPE, Presidente de Honra da AMPARE.)

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