A Palavra de Quem Sente: Eu e o Pânico – Alessandra Bacelar

Desde a infância convivi com o pânico silenciosamente. Uma aluna aplicada, calma, disciplinada e responsável, elogiada por funcionários da escola, professores, parentes e amigos. Quem poderia imaginar que por traz de tantas qualidades escondia o medo?

      Lembro que os primeiros sintomas aconteceram no transporte coletivo. Sentia tontura, falta de ar, desmaios e vômitos com freqüência. Era um transtorno só em pensar em entrar num ônibus com muita gente. Na adolescência, a fase em que comecei a sair com amigos, tentava controlar o medo me cercando de cuidados e eram inevitáveis as perguntas: aonde vamos? Com quem vamos? A que horas voltamos e com quem? Com o passar do tempo esses questionamentos não eram suficientes para que ficasse menos ansiosa. Enquanto os meus amigos se divertiam numa festa, num barzinho ou num cinema, eu estava nervosa, tensa, procurando a porta de saída, pronta para fugir. Era o medo tomando conta de mim!

      Pensei que a solução para contornar o medo era freqüentar os lugares que gostava em horários com menor fluxo de pessoas. Desta forma, ia ao cinema na primeira sessão, para não correr o risco de estar lotado. Durante certo período minha estratégia funcionou, mas logo deixou de ser eficaz. Algumas vezes passei mal na metade da exibição do filme e tive que sair do cinema.

      Sempre fui estudiosa, gostava de ler, pintar porcelana, ir ao teatro, ao cinema, exposições. Paulatinamente, comecei a me isolar, a recusar convites para sair e a deixar de ter alegria com as coisas mais simples e as que mais gostava de fazer. Com isso as pessoas começaram a perceber que eu era diferente, e passei a ser excluída e apontada como “esquisita”. Meus próprios familiares criticavam minha maneira de ser, porque eu não saia para canto nenhum e vivia trancada no quarto estudando, diziam que eu parecia uma freira. As pessoas que poderiam me ajudar e socorrer, não entendiam o que se passava comigo, então, fui me fechando cada vez mais.

      A maior crise neste período foi durante um show no Clube Português, estava com minha família e fiquei desesperada com a multidão que só aumentava… Desapareci. Enquanto todos assistiam a apresentação, eu passei a noite no parque de brinquedos próximo ao posto de emergência, único lugar que consegui respirar. Aquele foi um dia fatídico, nunca mais fui a mesma. O pânico estava me vencendo. Eu não sabia o que acontecia comigo e comecei a achar que estava enlouquecendo. Pensei algumas vezes em suicídio, e chorei pedindo perdão a Deus por ter pensado nisso.

      Quando fui aprovada no vestibular da UFPE foi mais uma fase de tortura, o ônibus que tinha que utilizar só circulava lotado, então estava na parada as seis horas e antes das sete horas já estava na Cidade Universitária. Tudo isto por medo, que não me permitia perceber que estava correndo um risco muito maior ao chegar tão cedo ao campus, quando as aulas só começavam as oito horas. Conclui o curso, mas o meu rendimento não era bom, não conseguia me concentrar nos estudos, não dormia bem, não havia mais lugar onde eu pudesse me sentir bem. Estava limitada pelo medo. Tinha medo de tudo: da noite, do escuro, de estar só, de lugares fechados e com muita gente, de usar elevador, de sair de casa, de ser assaltada, etc. Ainda assim, fiz uma pós-graduação, da qual não tenho certificado, pois não consegui concluir a monografia.

      Eu estava muito doente, precisava de ajuda e ninguém percebia! Tentei reagir sozinha, mas o medo era mais forte do que eu. Eu já não conseguia disfarçar o que acontecia comigo, e como sou espírita, as pessoas do grupo notavam algumas crises e diziam que era influencia espiritual, mediunidade desequilibrada. Desta forma, comecei a estudar sobre o assunto, a participar de trabalhos voluntários. Todos esses recursos ajudaram muito a me fortalecer, mas não foram suficientes para que eu pudesse enfrentar sozinha o pânico. Entretanto, voltei a ter prazer pela leitura, pelo convívio social, pelas artes e isto foi muito positivo para mim.

      Quando li o livro: “O sucesso é ser feliz” de Roberto Shyniashiki, a uma trecho que ele traduz o medo como uma criação de nossa mente. Considerei que os argumentos e analogias feitas por ele eram pertinentes. Então, comecei timidamente a enfrentar algumas situações: quando começava a ficar com medo desviava o pensamento para qualquer coisa que me fizesse sentir bem, mais segura; usava dentro da bolsa velas e caixas de fósforos, caso faltasse energia; nos ônibus não olhava para as pessoas. Assim, consegui um pouco mais de autonomia. Contudo, muitos sintomas não desapareceram e as reações físicas transformaram-se em doenças.

      Decidi finalmente iniciar uma terapia, mesmo sem querer… É difícil olharmos nosso reflexo no espelho, e percebermos que não somos quem pensamos ser. Tudo estava fluindo bem, até que no dia 19/03/04, a noite vi uma mariposa voando no meu quarto e pensei que fosse um morcego. O medo me invadiu, mesmo sabendo que era uma mariposa, parecia que ela me perseguia, pois só voava para cima de mim e eu toda coberta e sem dormir. Até que fui para o outro quarto, fechei a porta, fiquei coberta, e ela continuava me assustando. Era a prova real de que a loucura era grande e que eu tinha que reagir.

      O terapeuta sugeriu o uso de medicamentos e disponibilizou os telefones de três profissionais de sua confiança, mesmo assim eu resistia. A sessão foi tensa e eu fui embora com muita raiva dele e de mim. Afinal de contas, havia me esforçado para tirar uma nota seis e ele simplesmente me deu um zero.

      Contrariando as recomendações, busquei informações sobre o pânico, seus sintomas e tratamentos; com esses esclarecimentos percebi que o medicamento era um bom auxílio no tratamento, mesmo sem querer tomá-lo. Concordei então com meu psicólogo e marquei a consulta com um dos médicos indicados, mas disse logo: eu vou porque achas que devo, mas não garanto que vou tomar o remédio.

      No dia 26/04/2004 eu estava no consultório do cardiologista relatando minha lista de sintomas, medos etc. Estava muito nervosa e com medo do que iría ouvir. Conversamos muito e no final da consulta ele prescreveu a medicação. Quando nos despedimos ele me disse: – “Com o pouco conhecimento que a medicina dispõe sobre o pânico, acho que posso te ajudar” e eu respondi: – Tenho certeza que sim. Ao sair do consultório passei na farmácia e comecei a tomar o remédio no mesmo dia. E não me arrependo!

      Hoje tenho a certeza de que não sou louca, não preciso mais das velas, saio sozinha, uso elevador, uso transporte coletivo, etc.

      O pânico não foi só sofrimento e limitação e todas as coisas negativas a que está associado. O pânico proporcionou mudanças em minha vida que só através dele tornaram-se possíveis. Hoje sei que: não sou fraca; que posso conquistar muitas coisas e pessoas valiosas (meus queridos amigos); que Deus esteve sempre ao meu lado, colocando as pessoas certas e nos momentos certos para que eu não sucumbisse de vez.

      O escuro não me aterroriza mais. A escuridão é apenas a ausência de luz. Quando realmente focamos o objetivo da “cura”, mostrando as nossas fragilidades e nos determinando a enfrentá-las, eis que as sombras desaparecem. Tendo em vista que: expomos os nossos medos à luz. “Não importa a velocidade que caminhamos e sim a direção”. E eu tenho a convicção de que estou na direção certa. Concordo com o que disse Barry Stevens em seu livro: “ Não apresse o rio” (…as vezes quando tudo sai errado, acontecem coisas maravilhosas e eu aproveito coisas que teria perdido se tudo tivesse dado certo)”.

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